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Tolentino Canhão

Antigamente, mas muito antigamente, quando falava-se bola de capotão, existia em nossa vizinhança uma rivalidade entre dois times regionais. Todo campeonato eles alternavam a conquista, ora era o Santa Cecília, ora o Timbó Grande.

Ocorre que nos dias atuais ainda esses dois vilarejos possuem fama de ser povoado por gente braba, de andarem sempre armados, ao estilo velho oeste.

Eis que no time do Santa Cecília revelou-se um ponteiro direito veloz
e, o que mais aterrorizava seus adversários, dono de um chute
poderosíssimo, que segundo contam os que viveram na época, se existisse essas modernezas que dessem para medir a velocidade como hoje, passaria dos 300 km/h tranquilo.

O nome desse herói era Tolentino e só de pronunciar antes das pelejas muitos adversários desistiam.

A fama de Tolentino correu o Planalto Norte Catarinense e antes dele chegou ao vilarejo de Timbó Grande, antes da decisão final do campeonato, entre... Santa Cecília X Timbó Grande, no campo do Timbó Grande.

Para evitar problemas, o técnico do Santa Cecília resolveu deixar
Tolentino no banco, evitando assim que ele lesionasse algum dos atletas do time adversário e causasse uma confusão sem precedentes.

O jogo transcorria normalmente (violento, mas para esse clássico era normal) com alternância de baixas nas respectivas equipes, quebrava um de um time, logo o adversário dava o troco e quebrava outro.

Só que o que o time de Timbó Grande não prestou atenção é que Santa Cecília veio com somente 3 reservas, entre os quais Tolentino.

Ocorre que lá pelas tantas, exatos 44:50 minutos do segundo tempo, o embate estava 1x1, quando um atleta de Timbó Grande entrou de sola e lesionou um de Santa Cecília, em represália a uma outra entrada recebida anteriormente. O atleta teve de ser retirado do gramado de maca para ser substituído e aí nasceu o problema: já haviam sido feitas duas substituições, e só restava ao técnico colocar Tolentino em campo. Após benzer-se, o fez.

Quando a torcida de Santa Cecília o viu entrando começou a gritar:
Toleeeenttino...Toooleeeentiino. Já a do Timbó Grande Jeeeesssuuus, Maaariiiaaaa, Joséééé...

Tolentino, seco de vontade de chutar a bola, a falta marcada, no meio de campo, não deu outra, foi para a cobrança.

Todos ficaram em silêncio sepulcral, na expectativa do que iria
acontecer. Só se ouvia ao longe um gemido triste de um nhambú como que prevendo uma tragédia e o bater de dentes do guarda-meta (antes de virar goleiro).

Tolentino arrumou a bola, correu para ela e poww... chutou com toda a força que possuía... A bola deu na trave, mas com a força empregada no chute, partiu-se em dois pedaços, um foi para dentro, outro para fora do gol.

Aí começou a discussão com o árbitro, o Santa Cecília queria o gol,
afinal a bola entrou, o Timbó Grande não, a bola saiu.

Quando as coisa já estavam começando a perigar, para evitar um mal maior, o árbitro achou a solução: deu meio gol para o Santa Cecília e encerrou a peleia.

O Santa Cecília ficou campeão e feliz, o Timbó Grande triste mas
conformado, afinal perderam por meio gol, e meio gol não é diferença.

Essa quem me contou, foi o próprio Tolentino, que hoje está com 76
anos e ganha a vida carregando melancias em caminhões... a chute, é lógico!

Ronaldo Baukat
Policial Militar e Agente Financeiro
14/03/06



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